Morbus Gravis

Estão vinte graus em Dezembro, e nem uma nuvem nestes céus que se obstinam em nunca mais caírem sobre as flanabundas e  aldeãs cabeças da turba perambulante.

Um tempo execrável, serôdio na eclosão, para um povo de execráveis, que conduzem os seus inflacionados carros low-end com os olhos fixados num beco imaginário e violáceo, burilado em todos os flancos com as mais brilhantes luzes de Natal do universo e adjacências, e por aí vão embolhados, ensimesmados dentro do aquário onde se acoitam do Real para viver a fantasia que o Pai Estado lhes dá com o dinheiro dos novos Tutsis.

O povo de execráveis marca e abomina, à passagem  das entorpecidas horas, os portadores de olências alienígenas à horda – os não-mutantes sacrificiais que teimam em aferrar-se em interpretações velhas, pessimistas e inflexíveis da condição humana. Conduz como se atrás de si ninguém viesse; conduz como se à sua frente ninguém possa ir. Conduz-se a lado algum e estrebucha organizadamente em horror, com a sincronia própria de um alveário inteiro, sempre que alguém exterior ao viveiro a algum lado  concreto se pretenda, em sua presença, conduzir.

Finda a evolução Darwiniana e findo com ele o temor atávico ao frio, às bestas do mato e à escassez da ceva, é agora arregimentado pela globalização supraluminar do conhecimento que o frenesim epigenético encontra escoamento solto. É elementar a razão pela qual um socialista não poderá jamais compreender um seu antagonista ideológico. É elementar para qualquer animal perceber que somente as linguagens da força e do medo, em caso algum a da cognição racional, podem traduzir um diálogo entre seres de espécies diferentes. Tanto faz que a confabulação tente dar-se entre um porco e um babuíno, como entre arremedos de hominídeo transmutados em ângulos opostos pelo somatório das suas exposições à urdidura social, o resultado será sempre o mesmo: uma sucessão de balbucianços de parte a parte tidos por inanes, e depois o silêncio, precedido ou não por dose bastante de violência física.

Vem isto a propósito de eu ser hoje incapaz de sentir qualquer indício de excitação, seja ela sexual, erótica ou laboratorial, por mulheres não oriundas da minha espécie. Incapaz, em pleno, de admitir a possibilidade, ainda que fugaz e oclusa de todos pela mais plúmbea e blindada parede, de chegar à cópula com alguém que a) leia jornais, b) não veja mal em exercer funções improdutivas sendo para tal paga com estipêndio sultanesco dimanado do erário, c) aos quarenta anos declare insciência sobre se alguma vez quis ser mãe, e possa d) nutrir-se de prazer na noite e nos bares, e) ter tão pouco planeta que encontre ânimo em pagar €25 por uma refeição derrisória, composta das mesmas ridicularias que animam os labregos da imperial com croquete, a consumir sob um sol gerador de carniça, de moscas, de suor leguminoso e  de indolência bucolista endémica,  e finalmente f) não perceber a ponta de um caralho acerca do meu problema com tudo isto. Seria como aliviar a luxúria numa das minhas galinhas, aviltante para ambos e odioso ao olhar do Senhor .

E vocês ainda se interrogam porque é que tenho escrito com menos frequência?

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