Antropóides na Bruma

Eu não ia escrever sobre o caso do gorila e da criança caída, por razões diversas sendo quase todas redutíveis a uma: no meu ideário não haveria caso algum.

Porém, a grande urbe socializada, a cujos tubérculos celulares é concedido à revelia de qualquer sensatez o poder da palavra pública, vêm fazendo questão de vindicar o previdente aforismo da Tenente Ripley – nuke it from orbit, it’s the only way to be sure.

Por ordem crescente de insanidade, tivemos:

– defensores dos animais a colocar em causa a celeridade com que os seguranças do Zoo intervieram, e que seriam lestos a criticar o exacto oposto caso o símio tivesse esfacelado o petiz

– jornais onde foram publicados vídeos que mostram o gorila, alegadamente se o alegante estiver bêbado como um cacho de Touriga, a acarinhar a mão do puto; eu vi e revi e pareceu-me até que usava a palavra em Afrikaans Gestual para “calma”, mas faltou um tradutor esquizofrénico como aquele que ladeou Obama no funeral desse outro turra, o Mandela

– comentadores, supostamente pessoas humanas, defendendo o genoma 99% humano (estou a citar, tenho poucos links porque estou no trabalho mas ide ver que a verdade anda aí ou lá) do animal, alheios à composição da cria que os pais de quatro, pulhas, não levavam numa trela

– o nome do antropóide superior (assume-se aqui, mediante comparação das reacções por parte das comunidades  Humana Ocidental e Gorilária Meridional, que a primeira fica claramente aquém dos mínimos para inclusão na liga dos evoluídos) corre meio mundo, ao passo que do nome do miudito, à semelhança do que acontece aos milhares de seres com genoma 100% humano que são diariamente violados, abortados, espancados e tudo o mais, nem um pio

last but not least, apanha-se o seguinte comentário, transcrito sem edição,

Vincent Schollen There are 880 mountain gorilas left in the world and more than 7 billion humans, how come a kid is worth more than a gorila?
Gosto · Responder · 1312 · 10 h

brindado com 1312 “gosto”s em questão de minutos, e isto para não falar nos triliões de bactérias que todos os dias matamos, agravando ainda mais o aquecimento global.

É a validação suplementar do método de Ripley, o qual espero ver no meu tempo de vida aplicado, por quanto me toca, o mais depressa possível e com a aturada obstinação de um pescador de pérolas Filipino.

image

(screenshot João Pereira)

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