Runaway Train

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Estou na estação dos CTT em Palmela. Os números das senhas atribuídas a quem espera por atendimento são lidos em voz alta pelos funcionários que ocupam dois dos cinco guichets – os outros três estão vazios porque os respectivos ocupantes andam em romaria pelo interior da estação e o chefe saíu, mesmo diante dos meus olhos, às 10:37 para cumprimento de algum direito constitucional. Onde há semanas havia um écran com a ordem de atendimento, agora está um esqueleto em aço inox com fios pendurados à revelia das normas Europeias, da ASAE e quiçá psiquiátricas.

Enquanto espero pela minha vez, uma jovem de 20 anos, mãe de dois pimpolhos que arrasta consigo, reclama na tentativa de pagar a conta da água. É que as facturas aparecem, mas no sistema a morada dela não existe, situação corriqueira e que não exige um médium que invoque o espírito de Kafka para ser explicada. Antes, tinha sido despachada para o hospital mais próximo, com os nervos em franja, uma rapariga que só queria entender porque é que 50% das vezes as cartas registadas endereçadas à sua mãe, entrevada e analfabeta, vão parar a casas aleatoriamente escolhidas por algum sátiro bêbado. O funcionário encolhia os ombros e dizia, com bonomia e alvor, que até nem devia ser ele a dar conta deste tipo de casos porque as normas dizem que um dos colaboradores tem que estar no balcão do cidadão, outro no banco CTT,  e assim por diante.

Chega a minha vez. A congregação de utentes em espera ridiculariza as listagens do Ministério da Saúde, e apresento o aviso de levantamento que foi deixado, de acordo com os preceitos lusos, superiores em qualidade e progresso aos da Somália, na casa de um vizinho anónimo amável q.b. para o ter deixado no café da esquina já uns dias fora de prazo. Conforme ilustra a foto seguinte, qualquer pessoa daria logo com o destinatário correcto da encomenda:

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É bom de ver que hoje, dia 30 de Maio de 2016, sendo já dez e meia da manhã, eu estou a tempo de recolher o pacote, oriundo da Alemanha, essa terra onde Belzebu mija e caga nos direitos das pessoas, ninguém é feliz, e todos são tratados friamente como números que os traumatizam a ponto de meia população andar tatuada, como em Dachau e Auschwitz, com séries de dígitos nos braços; ele é datas, resultados da bola, sequências aleatórias. Ali nada funciona porque só importa o lucro e a eficiência, valores que desprezam o afecto, o carinho e a diversidade na cultura do respeito pelo Outro, como em Portugal que é vanguardista nisto e no repavimentar de pavimentos já colocados.

Dizem-me então que o meu pacote não está lá, não sabem onde anda nem quando posso lá voltar mas que olhe, é assim, não é culpa da estação, do balconista nem do chefe que regressa entretanto de rissol ainda a crocar aos cantos da boca. Mas como não está? Não está ,é assim, só cá voltando. Então e quem me paga estas horas que perdi? Bom, só se o senhor reclamar.

É aqui que eu reclamo. Alto e bom som, com a voz colocada e com a compostura de anos a engolir o nojo vigente que uma população de labregos elegeu como forma de vida, apresento a minha contestação.

Ao fim de exactamente 32 minutos o meu pacote apareceu. É que estava no fundo e ainda não houvera tempo, seja lá o que isso for para os bolbos túrgidos de merda que preenchem este país em descarrilamento constante, de ir ver aquele canto da caixa.

Mas o meu pacote, tal como a morada da rapariga que queria pagar a água, existia; só que apenas para um dos lados, como os interruptores do fisco, das urnas, dos concursos públicos, da constituição, dos descontos e da impressionante falta de colhões que há-de guiar-nos a todos ao cantar do hino com os pés para a cova, numa Venezuelização iminente.

Agora vou ver se o conteúdo chegou inteiro.

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