Jim Beam Blues

Abro os olhos às 05:10, hora habitual a que acordo quando estou em horário de Verão, e constato, ou melhor reafirmo constatar a materialização dos meus temores sociais  mais sombrios. Digo sociais porque são de somenos, isto é, não me tiram o descanso nem tangem fortemente nenhuma corda do meu equilíbrio diário. Por outro lado, digo temores, porque embora até prova em contrário seja imortal, ao tempo que tenho pela frente saber-me-ia bem aproveitar devidamente, ou seja, com este regresso à cidade do circo montado pelos labregos do costume a terminar numa apoteose de chamas e horror generalizado.

Vejamos o que me leva a começar o dia com dois cafés já tirados, e a querer despachar de uma assentada a descrição dos horrores com que fui brindado ao verificar as notícias pela alvorada.

No canal 1 do Pravda, tece-se encómios infantilóides a governantes, propagandeia-se o islão higienista através de mensagens de submissão ao Bem Comum, e faz-se alarde escrito em português de 1º ciclo e ao melhor estilo non sequitur dos resultados, a saldar mais tarde, que a campanha eleitoral produziu entre as camadas charro-juvenis da elite Vasco & Beatriz mais bem preparada de sempre para fugir do manicómio rumo ao mundo real, onde terão os primeiros e benditos choques frontais das suas tenras vidas,  mal terminem os respectivos cursos. Pouco importa haver um jovem mainato a quem pagam para que seja capaz de assinar, com o seu nome, uma peça onde pespega duas linhas consecutivas escritas com a simplicidade mongolóide de quem diz que o Benfica marcou primeiro, e o Sporting também, a relatarem a nova vida que as obras conferiram ao bairro e as queixas constantes dos moradores que já não suportam mais bandalheira.

O que passa no canal 2 do órgão comunicativo, sensorial e preênsil da Celestial Coisa Governativa? Aqui costumava passar música clássica, mas já cá não venho desde que um tipo tirado dos livros de Philip K. Dick e com um laçarote às bolinhas veio para as páginas da frente debitar alucinações. Façamos um zapping digital enquanto a água corre para o duche, ó desperdício soez e violação grosseira das directrizes urbano-aquíferas para a promoção da hombridade naturopática. Ah, muito bem. Um olhar acrítico, portanto jornalístico conforme norma ancestral que manda relatar factos e somente factos, sobre o Conselho de Ministros mais extraordinário de sempre, com a repórter a ter o considerado pudor de omitir os avistamentos de fadas, unicórnios, gnomos, Maomé a cavalo numa virgem curda, o deus Ganesh com os braços cheios de panfletos ilustrados com a efígie do semideus-sapo Costa (fui conferir com A. C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada se podia dizer isto, e posso), e o milagre dos cravos que Djamilina, técnica superior de asseio de 1ª categoria  encarregue do turno matinal ao domingo lá onde a seita geringoncial se reúne, testemunhou ao passar a esfregona logo no primeiro metro do homílico linóleo social. Tempo ainda para dar conta da preocupação de São Guterres, discípulo fiel da múmia Soares que escaqueirou isto tudo, para prosseguir a exegese da relação evidente, ai dos negacionistas, entre os oceanos, a desigualdade, os refugiados e o pacotinho de rebuçados que os meus sobrinhos comeram ontem ao lanche enquanto viam um filme com tiros e explosões.

Click. Estou agora no Pravd@3, versão light destinada à fatia querúbica da população, nos intervalos das aulas de ballet exótico e desenho de ábacos afegãos, ministradas por sindicalistas elevados à carreira docente por mérito em serviços a Maria de Lurdes Rodrigues. Fala-se da higiene dental austríaca, da alegoria ovino-licantrópica e do Céu na Terra onde a democracia funciona de acordo com o plano central. Click.

Em suma, aguardo pelo único evento agora bastante para deter a inexorável marcha da loucura colectiva: a bancarrota 4.0, num jardim perto de si com direito a copos de plástico, raquetes, e via ciclopedonal direitinha ao ponto de onde partimos ,com paragem para abastecer, verter águas e apanhar um passageiro especial em Caracas.

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