The trouble with angels (1966)

Num hemisfério em que o rácio de taras por habitante começa a entrar na fase parabólica, da qual sairá transmutado em rácio de habitantes por tara, impõe-se perceber quão puramente neurológicas, logo inconciliáveis, são as diferenças entre aqueles que se entrincheiram em lados opostos do polígono social.

Assim, apresentam-se três grupos distintos de dramatis personae: os ignaros crónicos, cuja esfera de conhecimento se resume ao empirismo de condomínio; os portadores de nesciência grosseira, que por preguiça, inaptidão ou interesse velado em graus variantes conseguem apreender a realidade objectiva, mas cujo processo relacional com o ecossistema os obriga a um escapismo constante e agudo para mundos alternativos; e por ultimo as pessoas sadias.

Personificando estas tipologias, optámos por dar como exemplos: no grupo 1, o meu gato, cujos indicadores de inteligência emocional e uso da Razão são em tudo iguais aos da manada ruminante que penduliza do centro comercial para a praia em perpetuum mobile quase platónico.
Para o segundo lote escolhemos Diomedes, Senhor das Éguas Carnívoras, pela simplicidade com que conjuga vários aspectos do mal que aflige a humanidade ocidental, a saber, o feminismo castrador e suicidário (quando todos os homens de cá estiverem metamorfoseados em libelinhas metrossexuais, quem vai defender-vos dos cabeças-de-toalha com olhos raiados de sémen?), o apego umbilical à vetustez de glórias passadas e o hedonismo centrado em brinquedos perigosos, como veículos de topo de gama, putas caras, viagens a arrabaldes miseráveis com direito a comer e beber que nem émulos de Pantagruel, e todas as ficções criadas pelo Estado, quer sejam de natureza tributária, educativa ou judicial.

A fechar o rol, pensamos não haver pessoa mais saudável neste planeta do que Simo Häyhä, o franco-atirador finlandês que despachou centenas de maus durante uma guerra recente. Infelizmente, está morto e foi por esse mesmo motivo que o escolhemos, uma vez que todos nós, malta lúcida e que ainda se aguenta à bronca sob as alarvidades zooantrópicas deste Governo estaremos, pela acção do mesmo, muito em breve à mesma mesa de Häyhä comungando do vinho que consola os justos.

Em suma, lembrei-me disto quando vinha no comboio e dei comigo a compartimentar os passageiros de maneira tríplice – os que nao liam nada, os que liam romances onde nada foge ao concreto balizador das suas zonas de conforto onde tudo é imutável desde a prateleira no supermercado até aos descontos para a velhice, e os outros que à semelhança de muitos finlandeses especulam silenciosamente acerca da urdidura imprevisível do Mundo.

É daqui que vêm os casamentos, as variações de massa corporal, os resgates do FMI e os divórcios.

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