– O nosso entrevistado de hoje é Álvaro Assumpto Javardo Lopes de Lopes, fiscal sudoríparo. Bom dia Álvaro, bem vindo ao forum.

– Bom dia, e bom dia ao auditório e obrigado por esta oportunidade que me dão de falar num dia tão feliz. Só uma correcção ao meu nome, eu sou Assunto, não sou Assumpto. É uma coisinha só, nao me leve a mal. O resto está correcto.

– Álvaro, mas fiscal sudoríparo, e logo numa zona tão diferenciada como a Damaia. Como é que chegou a esta profissão? Fale-nos um pouco do que leva alguém com o seu passado – escriturário numa conservatória, auxiliar de acção coerciva, oficial de autenticação de senhas – a optar por esta inflexão já perto de um fim de carreira.

– Bom, olhe, eu optar, deixe-me primeiro dizer que grande democrata é esse enorme, corajoso, valente e libertador nosso Primeiro, o doutor António Costa, reconhecido no mundo todo, nao é, até veio em várias rádios e constou-se por essa sociedade fora, nao foi so ca, que veio salvar isto tudo, porque primeiro cortaram as pernas ao Sócrates, que estava a conseguir mudar isto, e agora queriam cortar ao resto do povo, que andava descalço e era assim sem saber ler nem calçar-se que eles o queriam. Portanto bem haja o gigantesco e colossal democrata, o professor presidente António de Oliveira – desculpe António Costa, pela liberdade que nos deu.

– Sim. Mas Álvaro, o que é que faz no seu dia a dia, como foi seleccionado para fiscalizar a carga de suor destilada por cada contribuinte, e com base nela, ao que sei, a taxa a aplicar na factura da água e consequente registo na base de dados de contribuintes com consumo restrito de sal, álcool, música e outras substancias indutoras de um suor menos comum?

– Então, isto foi um chamamento, se quiser, porque naquele dia, no dia em que lá foram ao bairro – olhe que dantes no meu bairro muita gente nem dinheiro tinha para trocar de casaco uma vez por ano, e muitas crianças tinham que trabalhar aos 20 anos e nem sabiam o que era brincar na estrada, foi o grande democrata o arquitecto Mário Soares que acabou com essa pouca vergonha que era o meu bairro sem o dinheirinho que os ricos andavam a estoirar em casacos mais de uma vez por ano – e eu fui. Eles deram-nos o que prometeram, ao contrario do Passos, esse demónio, e eu fui.

– Então – mas para que os nossos ouvintes possam perceber, Álvaro, vamos – peço-lhe talvez um exercício prático. Descreva-nos, desenhe-nos, um dia típico na sua actividade. Como é que este grande salto em frente veio a envolvê-lo?

– Sim. Pronto. Nós saímos de casa, e isto só a jeito de paralelo, nas nossas casas está agora instalada uma coisa nova que o altíssimo e puro democrata, o engenheiro pós-bacharel de Bolonha, António Costa, Marajá e Senhor da Sinalética, Trismegisto da Rotunda e Metropolitano Maior,  quis que testássemos e que – pronto, isto sem querer levantar muito o véu, que ainda sou advertido ou pior – nós quando saímos de casa passamos o punho num leitor biométrico, que nos apura logo as necessidades para o dia, e quando vamos almoçar por exemplo já recebemos – já viu xô jornalista – a refeição feita, com tudo à medida sem termos que andar como dantes, no tempo do Salazar, a ser nós próprios a procurar o que nos apetecia – e então depois encontramo-nos, os dezasseis de cada equipa à porta da estação. Então escolhemos os contribuintes que nos parecem mais prováveis de ter um suor desviado, pronto, isto também há objectivos, nao vou dizer que não os há porque não é com impostos que se lá vai a pagar isto tudo do primeiro mundo, a gente tem de entender que se evolui – e medimos sem incómodo nenhum nem dor nem atraso, aquilo é um sensorzinho que se coloca no lábio inferior e já está. Depois os dados são enviados em tempo real, através do ESCARROPE, que é um sistema topo de gama histórico no mundo e que encomendámos aos melhores consultores; se algum contribuinte tiver suado, logo ali, acima da terceira barra de controle, somos logo os dezasseis alertados e os nossos oito supervisores e os quatro oficiais dos nossos supervisores e os dois semi-supremos e o supremo local da mini-região valida e o contribuinte é ali logo sinalizado com uma luz vermelha que se acende nos nossos implantes para ser aconselhado, encaminhado e instruido antes de poder fazer diferença no ambiente dos outros, dos cumpridores. No fundo a regra é que se todos suarmos como deve de ser, suamos todos muito melhor.

– Muito bem. E nisto se bem compreendi, se fiz bem o meu trabalho de casa [piscadela de olho imperceptível para ouvintes enquanto o jornalista tacteia uma pastinha cor-de-rosa com o logotipo do Ministerio da Coesão Frontal] nisto somos pioneiros? Portugal é pioneiro.
– É. Ouça, isto nao tem nada a ver com aquelas patranhas que nos impingiam, desculpe lá o termo, no tempo dos nossos pais, coitados, fizeram o melhor que puderam, mas éramos todos pouco esclarecidos. Aquilo de deus, e de outros planetas, da vida após a morte, de nao se poder abortar porque aquilo lá dentro era vivo – qual vivo, vivo é o Eterno Comunicador o Juiz António Costa, AVANTE! ai desculpe-me que isto a emoção, eu se não fosse esta oportunidade que me deram,e bem, estava com a mulher do primo da minha cunhada, que nunca aceitou o Voto, nos programas da tarde a bater palmas por cinco euros – essas coisas que fazem parte de um passado onde nunca havemos de voltar, o Sistema querendo. Somos portanto pioneiros sim senhor e com muito orgulho e não temos que ter medo de o assumir porque no resto da Europa há países que já foram pioneiros nisto e estão hoje muito bem, tão bem ou melhor que nós. Isto pratica-se um pouco onde quer que as pessoas percebam o que é melhor para elas. No fundo é isto.

– Álvaro, o nosso tempo está quase a chegar ao fim. Tivemos muitos ouvintes em linha, mas acabámos por encontrar nulidades processuais em todos eles, pelo que teremos de concluir o forum de hoje com mais uma questão dirigida a si, que me ocorreu agora sem qualquer motivo. Diga-me, o contribuinte, ora exsudante, não é onerado por nada disto. Nem é bem uma pergunta (risos).

– (gargalhada explosiva) AHAAHAUAUHAHAHHAHHHHHHH óóóóóóo’OAHUHAHHHH óóóó’ai o senhor! nãoó, ó, Não. Está a brincar, o senhor é muito – ai essa agora, como se fosse possível. Já percebi, já percebi o que o senhor quer dizer.
Não. Isto não tem custos nenhuns para quem sua, e mesmo para aqueles que não suam – um ponto que nos esquecemos de abordar, é que é suposto suar um bocadinho, e quem nunca sua é capaz de encontrar, uma vez por outra, a opção entre pagar um pouco mais quando for comprar roupa, ou então suar mais para acompanhar a média, mas será sempre uma opção – mas mesmo esses, nunca serão onerados.
Ninguém paga mais por este direito e quem disser que paga, ou mente ou não crê no Pastor Cardinal António Costa, nossa constelação de directrizes. O que há é a taxa de direitos de passagem dos dados sudoríparos, porque quando se envia o registo com os valores da ureia, do sal, da temperatura – imagine o senhor que eu meço um homem, de raça lisboeta, na estação de Campanhã, e tenho por algum motivo, por ele ter um filho que vive em Campo Maior ou assim, que fazer cruzar os dados todos com sete freguesias e 3.244 pontos de controle – ah, fora os Europeus, que isto foi com fundos do POPH.
Pronto, isto para não ter custos, tem um preço, e há de facto a taxa dos direitos de passagem da informação sudorípara, mas é só. E as PUDICAS, as Punições Directas ao Contribuinte Atípico, mas essas, ehe, bom, bom.
O senhor não me diga que é preciso pôr-me aqui a dizer o que todos sabem.

– Álvaro. Tenho a certeza que vamos todos – se me permite o trocadilho – ficar muito mais aliviados com aquilo que transpirou desta nossa conversa. Obrigado pelo seu tempo e um resto de bom dia de medição .

– Ora essa. O importante é servir aqueles que nos servem. Bom dia para o senhor também e boas gotículas.

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