Tudo o que é de ouro reluz

Por aversão à desventura vivida nas horas transactas, fez-se questão de averbar, desta vez, um ponto certo na coluna das vitórias.


Chegados ao Fundão ao virar da décima-terceira hora, demos com o restaurante O Alambique de Ouro, pertença do Hotel Alambique – cuja existência mereceu recente upgrade com a aposição de uma quarta estrela junto ao nome – repleto de convivas compondo a sala por forma a aguçar ainda mais os apetites que rememoravam as visitas anteriormente aqui feitas.

Nesta casa o standard de serviço é tal, e hoje não foi caso para manchar a estatística, que por maior afluência nunca um pedido é esquecido, adulterado, deixado ao correr do azar. Antes que um vampiro pudesse cheirar-nos o sangue quente a afluir ao palato, compareceram sobre a mesa: ovos verdes, três unidades isentas, sequinhas, bem fritas e passíveis de consumo sem peias colesterofóbicas; xerovia (cenoura branca) frita e salada de grão com bacalhau, com séquito de pão estaladiço e oloroso, degustados ao longo da primeira garrafa da tarde, um Esteva da mesma colheita requerida aquando da crónica anterior, mas de todo dali demarcada por ter sido, desta feita, servida à temperatura correcta e nem menos um grau. Marcharam ainda uma pasta de atum pouco oleosa portanto sápida ao milímetro, e pratinho de enchidos regionais de fazer inveja a um fauno dos mais inveterados.

Por provar mas ainda assim aprovados sob a vista e o olfacto ficaram os queijinhos frescos, bonitos e rígidos qb, que viveram para contar outro conto só e apenas por uma crise repentina de pudores dietéticos sobrevinda do nada.

Ao recair da Esteva comeram-se bochechas de porco macias, capazes de adular um faquir centenário, ladeadas por migas, batata frita em rodelas perfeitas, grelos, salada de tomate com orégãos (respire o leitor até sentir-se seguro) e feijão branco inchadinho de tão cuidadamente estufado. Apareceu, para quem estava sob restrições calóricas, o cabrito selvagem no churrasco (o chefe de sala, sempre alerta e vigilante, ainda havia sugerido mandar vir o chibo estufado para não desperdiçar os sucos) com arroz de feijão caldosíssimo.

Por esta altura nem sombra de memória já havia dos desaires da véspera. O staff deste Alambique, enquanto ciranda carreando para as mesas tanta arroba de satisfação, é um carrossel magnífico de vislumbrar, as faces repletas de competência e atenção.

A carta dos doces ainda veio mas faltou-nos a coragem para ir além do dito da casa. Sofre-se de alguma parcimónia, como de resto sucede em 98% da restauração em Portugal, é por não haver maltes condignos para o remate de tão avassaladora incursão pelo sonho de Epicuro. Ainda assim, o que havia bastou.

Relação qualidade/preço a tender para o infinito, sem vazios assimptóticos – quisera eu rapidamente obter o brevet de helicóptero para aqui poder pulular vezes sem conta.

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