Dêem-lhes formação…


Até 2007, ao chegarmos a Castelo Branco após travessia da A23 – que hoje pode ser feita, salvo aluimentos ou outro epifenómeno que mereça um alerta colorido por parte do SNPC – podia saborear-se uma bela refeição tradicional, a custo convivial, no restaurante Frei Papinhas. Podia, mas desde então que se deixou de poder. A aventura começa quando os nossos heróis acabam de sentar-se.

Ao início da tarde, a sala encontra-se vazia; apenas se apresentam o gerente e duas senhoras, uma bandeira do Brasil e outra de Portugal, além do mobiliário essencial.
A carta é sintética: picanha, bacalhau, e mais dois ou três pratos sem raridade nem interesse científico. Carta de vinhos exígua, composta por elementos, sem excepção, medianos.
Primeira pergunta: estes 7,50 escritos à mão junto à descrição do bacalhau são meia-dose? Resposta que devia ter logo feito acender todas as luzes de aviso: não não, só há doses completas.
Bom, então que sejam dois bacalhaus assados, uma costeleta de novilho, uma garrafa de Esteva tinto, e legumes cozidos…
Enquanto esperávamos pelo vinho, o gerente, um senhor brasileiro aparentando cerca de 50 anos, sugere que provemos a morcela. Mal anuímos, torna-se evidente que as oito rodelas do enchido vieram para a mesa geladas, num estado de entropia próprio do fim dos tempos.Mandamos para trás e eis que regressa aquecida a golpes de microondas.
Aterram ainda umas rodelas de salsicha brasileira com bacon frito, que hoje recordamos como o único ponto simpático em toda a nossa história.
Chega o Esteva, que é provado (na ausência do serviçal, que tinha ido tratar de outros assuntos) a cerca de 14º. Fazendo uso da palavra, informamos que o vinho está pouco cálido, demasiado frio. Retorque o nosso interlocutor, para grande assombro da mesa, que se o quisermos fresco, gelado, também se arranja. Dizemos que não, que o problema é exactamente o oposto. A perplexidade da pessoa é patente na forma como balbucia “mas ninguém nunca se queixou disso antes”…
Imaginamos logo de seguida que, sem dúvida, teremos vindo parar a um antro da mais vulgar mediocridade, já que, feitos os reparos ao bacalhau semi-esturricado e ao naco de gordura organizada na vertical e que nem no Uganda passaria por uma costeleta, a resposta foi a mesma: nunca ninguém se queixou antes, “os senhores não são de cá…?”
Next. As batatas fritas estão cruas por dentro. Informamos que aquele tipo de fritura deve ser feita sem que o óleo esteja demasiado quente nem as batatas semi-congeladas, por forma a evitar aquele efeito. É como informar um ónagro sobre as leis de Kepler. Idem para a quantidade das batatas a murro: quatro batatinhas do tamanho de um dedal, para duas doses de bacalhau. Mas isto enfim, poderia passar por maneirismo, nos dias em que há gente a comer uma lasca de pescada com meio bróculo, quiçá em espuma ou em suspensão coloidal, e a tornar ao seio de suas casas cheia de gáudio por lhes ter sido dada tão opípara chance.
Os cafés foram para trás duas vezes, por virem queimados. Explicámos os rudimentos que são do nosso conhecimento, sobre máquinas de café, moagem, pressão, e demais engenharia retro-balconiana. A senhora que tirava os cafés, que era oriunda de uma eslavónia qualquer, apressou-se logo a reportar que não era dali, só tinha ido fazer umas horas. Nós percebemos.
Da conversa final ficou-nos a dúvida entre o maior de dois medos: se ninguém se queixa, que espécie de povo é que anda, ciclicamente, a sufragar os destinos dos nossos filhos, elegendo os seus representantes com o mesmo apuro com que almoça farelo da pior espécie, a preço de vitela macia? Por outro lado, se havendo quem se queixe, estivermos ainda assim entregues, porque o mercado assim o dite ou por desistência dos melhores candidatos, a curandeiros que abrem um restaurante como quem compra um carro, o que dirá isso de “nós” enquanto merecedores de melhor sorte?

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