1900 (III)

Nos últimos minutos bateu-me forte a ideia renovada de que o filme de Bertolucci, para muitos a sua obra-prima, retrata com lucidez e sabedoria, além de humor profundo, a natureza humana.

Senão vejamos: pegando no maniqueísmo persistente que domina o pensamento do eleitorado, só existe a esquerda, a direita e os outros, os neutros (não me refiro a partidos do “centro”, e sim àqueles que escrevem sem dizer nada, faculdade proveitosa hoje em dia).

Assim há três situações possíveis para o futuro:

Um Estado entregue à esquerda, que é composta por pessoas aleivosamente humildes e bem-intencionadas (leia-se paternalistas e com duas caras consoante a brisa), caracterizar-se-à por uma total liberdade – de matar, roubar, procriar, comer, procrastinar, escrever, proibir – enfim, a habitual pluralidade que faz pautar os estados comunistas que o mundo conheceu, a troco da perda, também ela total, do conhecimento. Em poucas palavras, troca-se o intelecto pelo copo de vinho. Mas vinho bom, claro, que enólogos e chefs, a par dos tocadores de viola, é do que a malta precisa. Estudar e produzir é nos países onde há repressão.

Num Estado entregue à direita sucederia mais ou menos o inverso: a direita, sendo composta por pessoas com pouco sentido de discernimento para com realidades diversas das suas (designadamente “para baixo”) rapidamente transmutaria a aldeia numa espécie de Metrópolis Fritzlangiana, mas sem a beleza cénica da obra citada. Os incapazes (o que é que fazemos aos inúteis? comemo-los?) aglomerar-se-iam fazendo o modelo social implodir, porque os mecanismos montados pura e simplesmente obrigam a gravitar em seu torno sem opção exequível, e os mais capazes rapidamente voltariam a fazer o que fazem hoje, ou seja, demitem-se do exercício da sua aldeania e procuram outros poisos.

Restaria pois apostar nos outros, nos neutros, como aquele pessoal que debita inanidades sobre matérias que desconhece em absoluto – artigos escritos por analfabetos científicos, ou se arvoram em edukadores expondo dois ou três lados da mesma questão sem dizer uma só palavra que conduza à reflexão.

Ou seja, o voto em branco é também em sociedade, e não só em política, a melhor opção.

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