Intervencionismo, III

Estou farto de aleivosos.
Estou farto de néscios com tempo de antena.
Estou farto de ler gajos normais armados em pedagogos.

De resto, Delenda Carthago, ou mais vale sacar este texto ao Bruno Alves.

Como seria de esperar, a crise financeira tem dominado a agenda mediática dos últimos tempos. O Governo, que durante muito tempo fingiu acreditar que em nada o nosso país seria afectado por ela, usa-a agora para justificar todo e qualquer resultado “menos bom”, ao mesmo tempo que insiste que as “reformas” que levou a cabo tornam o nosso país “melhor preparado para enfrentar a crise”. Aparentemente, não ocorre a nenhum dos membros do Governo a contradição entre a afirmação de suposta fortaleza que as “reformas” construíram e a afirmação de que se elas não trouxeram bons resultados foi porque a “crise” não o permitiu. Em São Bento, nem a tempestade no mundo real faz o Primeiro-Ministro cair do Olimpo propagandístico que montou.

“Cá fora”, no entanto, a tempestade é bem real. As notícias de bancos e seguradoras a entrarem em falência assustam as pessoas, e os elevados preços de produtos alimentares ou da gasolina não ajudam a acalmar os espíritos. Tal como não se acalmam todos aqueles que rejubilam com o “colapso do capitalismo”, vendo na “crise” a Segunda Vinda do seu avermelhado Salvador (como se a primeira não tivesse dado no que deu). A maioria, felizmente, não exulta. Apenas vê na “crise” uma oportunidade para ver que “erros” se cometeram, e que “lições” daí se poderão retirar, para que não voltemos a passar pelo mesmo. Embora a sensatez de procurar não entrar em histeria seja de louvar, corremos o risco de estarmos a aprender as “lições” erradas.

Veja-se o editorial do Público do passado Sábado: Manuel Carvalho escreve que “as receitas recomendadas para debelar a crise são um claro atestado de óbito ao capitalismo libertário dos últimos anos”. Por outras palavras, a “grande lição da crise” é a de que é necessária a “atribuição de poderes mais efectivos a instâncias emanadas do Estado”, e as medidas tomadas pelo Governo americano são a prova disso mesmo. Manuel Carvalho comete aqui o erro de pensar que o facto de uma série de medidas serem relativamente consensuais é uma evidência da sua necessidade e validade. O facto de uma medida ser relativamente consensual e recomendada por muitos especialistas quer dizer apenas isso: ela é relativamente consensual e recomendada por muitos especialistas. Isso não faz dela uma medida acertada. Ela possa ser acertada ou não, e a quantidade de pessoas que a recomendam, tal como as suas qualificações, são irrelevantes para a avaliação dos méritos da medida em si. O facto de muita gente “recomendar” estas “receitas” para a crise não significa que não haja razões para temer os seus efeitos secundários: como é dito num artigo citado pelo João Miranda, “any talk of a government bail-out reduces the debtholders’ incentives to act, making the government bail-out more necessary”, e que acabem por ser os contribuintes a pagar os erros dos accionistas das empresas. O facto de muita gente “recomendar” estas “receitas” para a crise não significa que não haja razões para pensar que a “lição” que esta crise deixa não é a de que é necessária uma maior intervenção estatal, mas precisamente a “lição” contrária: compreender-se que a actividade financeira comporta riscos gigantescos, uma actividade particularmente sujeita aos efeitos causados pelos “cisnes negros” de que fala Nassim Taleb, uma actividade em que ninguém sabe realmente o que vai acontecer amanhã, e que portanto mais vale deixar as empresas correrem livremente os riscos que quiserem correr, e pagarem o preço que tiverem a pagar se a coisa correr mal, do que ter o Estado (que como qualquer outro agente, também não pode prever o futuro) a intervir directamente no mercado, e a estar sujeito a que um qualquer “cisne negro” lhe apareça à frente, e todos nós sejamos forçados a pagar o preço do risco que não compensou.

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