Pedro Lomba


“Na semana passada deu-me para parar em Coimbra em viagem para o norte. Almocei e entrei depois ao acaso numa sapataria para experimentar uns sapatos que tinha visto através da montra. Pedi ao empregado o número 42. Não sou um homem de grande pé. Vi depois o empregado regressar com três caixas. Como é costume, sentei-me.

Corremos os modelos todos e, após um instante de observação, o empregado fez-me um complexo diagnóstico podológico. Que eu tinha uns pés altos e ligeiramente cavos e mais não sei o quê e com um calcanhar retraído e com tendência para curvar para dentro quando ando. Bom, chega de pormenores. Ficámos ali uns minutos a debater um tema que eu pensava ser só do agrado de certo tipo de “fetichistas”. Aconselhou-me outro par que de facto me pareceu melhor. E fiquei a ouvi-lo.

Eu sei que a podologia não está na lista de interesses dos leitores do “Diário Económico”. Compreendo-os. Mas calma que não é isso: num tempo que impõe o conhecimento e a competência no trabalho, vejam que eu tinha à minha frente um homem notoriamente conhecedor e competente no que fazia. Não era um especialista em bolsas, energias renováveis ou direito comercial. Mas era um vendedor de sapatos que aparentava saber tudo sobre formas de pés, solas, calcanhares, ergonomias e a diferença que nunca me ocorreu na vida entre pés cavos e pés neutros.

Perguntei-lhe, intrigado, como é que ele tinha adquirido toda essa sapiência. Disse-me que aprendera por aí a “ler coisas”, na “Internet” e num “livro” que o cunhado lhe “trouxe de Londres”. Um dia percebeu que os clientes, sobretudo as mulheres, sorviam com atenção tudo o que ele lhes dizia sobre a anatomia do pé na sua relação com o sapato. Percebeu que podia melhorar a sua cultura geral em benefício das vendas.

O patrão, dono da sapataria, acabou por chegar a um acordo com ele nos seguintes termos. Se a loja vendesse todos os meses acima de um objectivo estimado ele recebia um prémio. Apesar da crise, no mês passado tinha conseguido levar mais 100 euros para casa. Já houve meses em que levou menos e outros em que não levou nada. Mas no melhor mês conseguiu arrecadar 200 euros.

Ao ouvi-lo, lembrei-me das vezes em que me desloco a um sítio para adquirir um serviço ou uma comodidade (pode ser comprar um livro, adquirir um electrodoméstico ou celebrar um contrato) e fico com a impressão de que quem me atende não faz a menor ideia de como me aconselhar. É como se eu próprio (es)tivesse do outro lado a tentar responder às minhas próprias perguntas.
Este homem era o oposto. Não sei se tinha mesmo interesse no que fazia. Não perguntei. Mas havia nele algo profundamente moral: tinha um trabalho e queria executá-lo o melhor que podia e sabia. Obviamente, comprei os sapatos.”


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