Imagem: wehavekaosinthegarden
Texto: cavernaobscura

Para que esta mensagem passe com maior claridade (“clarity” no original, em Inglês Técnico) optamos por mobilar (“furnish” no original em IT) o público com frases simplex, articuladas no jargão da casta dominante e com um complemento semântico que lhe seja familiar (“shut the fuck up and vote” no original coiso).

Assim, os portugueses sabem bem que andam a ser levados; os portugueses sabem-no bem. E sabem-no por demitir-se recorrentemente do mais rudimentar procedimento higiénico: olhar ao espelho de manhã e inspeccionar, atentamente, a fronha que ali se desvenda. Mas os portugueses escolheram! E os portugueses escolhem, e escolherão, porque têm direitos, veja-se bem, os portugueses pronunciaram-se escolhendo ter direitos que sabem bem! Os portugueses sabem pronunciar que querem escolher o que têm. É normal, de resto absolutamente normal, que assim sendo, quem escolhe o que tem, leva. E quanto mais leva, mais o cuzinho aquece, e mais forte se torna o PS. Tudo isto é normal e qualquer tentativa de provar o contrário não passará de uma manobra insidiosa para alertar o público para a dura realidade: os portugueses sabem bem o que encontram no espelho, de manhã. Sabem bem e de cima vem a Voz do Dono que fala por eles, como é aliás normal.

Mas dir-se-à ainda mais. Qualquer tentativa de escamotear a realidade será punida com o ostracismo, a chacota e a exclusão dos programas mais avançados, alguns até dignos do século LXXXVII, com que a Providência Social poderia ainda vir a entender brindar os elementos mais desfavorecidos – aqueles que não saibam, por exemplo, possuir o direito inalienável de, tendo abortado à trigésima semana, adoptar um aspirador vivendo em união gay. Assim dita o imperativo de estabilidade que os portugueses amam, que os portugueses querem, do qual precisam, assim ditam os portugueses que mandam nos portugueses que por seu turno vivem dias que são iguais, entre si e ciclicamente até morrerem todos de cancro nos bolsos, porque é a trabalhar, e não com questões parvas, que o país vai para a frente. Senão ficamos malucos.Os portugueses sabem bem que não são malucos.

E agora a sério.

Com o advento de mais esta Esmeralda na coroa do arquipélago, Sócrates-o-Usurpador e a Vara de acólitos que encabeça arriscam-se a rivalizar com as hordas de Tamerlão na corrida aos lugares cimeiros do próximo concurso da Emissora Social-Ortodoxa, “Os comedores de inocentes”. Num ritual de glória quase castrense e a expensas do seu já ténue equilíbrio, o território vai agora assistir, com abandono e bacanália, à reinvenção da burla.

É escusado vir bradar para aqui, no ermo blogosférico, a apologia do grito libertário, dos despertares colectivos, de revoluções inanes e torpes que mudariam apenas o formato à letargia. Toda a gente sabe em que país vivemos: Portugal está feito um grande e fétido recanto sem solução, em tudo semelhante ao simpático bairro onde decorre a acção do filme de Ettore Scola, “Feios Porcos e Maus“; onde o acessório é tido por essencial e campeia o culto à mediocridade; onde todos comem todos, consanguineamente, e perante a deriva das gerações que brotam, a maralha passa os dias no exercício de direitos “fundamentais”, alegremente cantando e rindo, numa espiral hedionda e agonizante. Não há nada como um par de sapatos novo para condizer com o creme, o telemóvel e os comprimidos brancos que combinam tão bem com o segundo maço de polónio, digo tabaco. O resto são cabalas que esses gajos novos, com a mania que são evoluídos, andam para aí a espalhar para ver se isto volta outra vez ao Salazar.

Este é o país em que é simplex constituir uma empresa, mas depois as certidões demoram 4 semanas a sair; em que as leis são do século XXI, mas depois o sistema e os funcionários do sistema são do Paleozóico; em que há formulários, sites, e mecanismos para reclamar disto e daquilo, promovendo a denúncia e o caguinchismo geral, mas depois tudo acontece e ninguém é jamais ressarcido do tempo e dinheiro que perde; em que desempregados de 60 anos (engenheiros a sério) são mandados chamar a centros de emprego para cuja localização não existem transportes públicos, e à chegada “convidados” a aderir a um programa de “reciclagem” a 50km de casa, com três euros e 25 cêntimos de subsídio de almoço, mas depois os filhos da puta dos políticos estoiram milhões de vezes esse valor numa semana, em merdas que não fazem falta a ninguém.

Os portugueses sabem bem o que lhes falta quando se vêem ao espelho de manhã.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s