Há muitos anos, numa certa noite de Verão, um carro fazia a grande velocidade a estrada marginal em direcção a Lisboa. Devia ser bonita a viagem porque bonito é o traçado dessa estrada e porque bonitas são todas noites de Verão ao pé do mar. E bonitas, lindíssimas até, eram as ocupantes que, seguindo em automóveis particulares de boa marca em direcção a Cascais, se cruzavam com esse carro oficial. Não é provável que os viajantes – os dos automóveis particulares, por um lado, e os da viatura oficial, por outro – tenham sequer cruzado um olhar nessa noite de Setembro. O mais certo é que apenas o mar e a Lua tenham notado como os sorrisos de quem viajava para Cascais contrastavam com o olhar inquieto dos homens que seguiam no carro de Estado, como então se chamava às viaturas oficiais. E tinham razões para sorrir os primeiros pois dentro de minutos estariam num dos acontecimentos mais extraordinários que até então tivera lugar em Portugal, a festa Patiño. Quanto aos segundos, a cada quilómetro vencido viam confirmados os seus piores receios. A dado momento, um dos passageiros perguntou ao homem que ocupava as suas atenções em que universidade se tinha ele formado. Não sabia. Peguntou-lhe em seguida em que ano se formara. Também não se lembrava. Nesse momento os outros ocupantes do carro de Estado perceberam que o Estado português era chefiado por um incapacitado.

Salazar, porque é dele que se trata, não sabia quem era. Cada vez mais apressada, a viatura segue para o hospital dos Capuchos. Também apressados, os convidados de Antenor Patiño, o rei do estanho, vão chegando a Alcoitão. Uma passadeira vermelha leva-os até àquilo que a imprensa define como um palácio suspenso. Enquanto, ao ritmo frenético dos Pentágono, nas pistas de dança se cruzam Gina Lollobrigida, Maria Félix ou a princesa Margarida da Dinamarca, Salazar, sentado numa cadeira de rodas, é submetido a exames nos velhos hospitais de S. José e dos Capuchos e, por fim, é levado para a Cruz Vermelha. Durante a madrugada, a claustrofóbica nomenclatura do regime é confrontada com a realidade. “O país está sem Presidente do Conselho” repete Gonçalves Rapazote. Perante o vazio de poder, os médicos tomam uma decisão: “Vamos operar o doente do quarto nº 68”. Enquanto, em Benfica, Salazar é operado, em Alcoitão, os convidados mais festivos de Patiño, vêem nascer o dia bebendo taças de chocolate à volta da piscina. A essas mesmas horas a censura atrasa a publicação, pel’O Século, da notícia da hospitalização de Salazar, notícia essa conseguida em primeira mão por um jornalista daquele periódico que se encontrava no hospital de S. José quando Salazar ali chegara vindo do Estoril. Será a Emissora Nacional quem anuncia o sucedido aos portugueses através da leitura dum oficiosíssimo boletim médico.
Quase quarenta anos depois alguns dos elementos deste drama teimam em voltar à cena: um chefe de governo que perde a capacidade de liderança; uma nomenclatura que não sabe viver sem chefe, até porque o chefe gostava de o ser e não autorizava outros protagonismos; élites económicas desdenhando do poder político que as alimentou assim que percebem que este está descredibilizado; um país que não distingue autoritarismo do exercício do poder e por isso fez e faz do princípio do mal menor o seu critério para entronizar os líderes. E como metáfora de tudo isso, vagueando em São Bento, alguém que acredita ser primeiro-ministro. E na rua um povo que mais do que acreditar em quem o governa, precisa de acreditar que tem governo.

– Helena Matos
(PÚBLICO, 12 de Abril)

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